21.5.06

Texto retirado do blog "Ao Mirante, Nelson!"

Elevador enguiçado.

– Sim, claro: o mundo acabou em 1789. Agosto de 1789. O que se pode chamar de Juízo Final, ou algo próximo disso, foi aquilo.
– França.
– Exato. Com a instalação da Assembléia Constituinte e a prisão do Luís e da Antonieta. Comparando com um desfile no Sambódromo, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi a explosão rítmica na Praça da Apoteose. Com isso a História se fechou em si mesma e não precisou mais acontecer.
– Sei.
– Tá, pode prosseguir em sua eloqüência blasée aí, sem nem olhar direito pra mim. No fundo você tá doido para acompanhar meu raciocínio.
– Eu espero.
– Então. Prenderam o casal real, os jacobinos se mostraram tolerantes com a oposição; o Robespierre, o Danton e o Marat assumiram a guarda nacional, convenceram diplomaticamente a Prússia e a Áustria a não invadirem a França, a Declaração se irradiou pela Europa, pelo planeta todo e tudo terminou feliz para sempre.
– E…?
– Claro, claro. “E…?” Sempre o “E…?” Ai, ai. Sabe qual o problema? O problema é que você não iria acreditar se eu dissesse que somos a materialização imagética de uma obra ficcional. Iria?
– Por que não?
– “Por que não?” Olha, estou realmente encantado com sua complacência fingida. Encantado. Vamos lá. Um tal Etiènne Vautrin, escritor, burguês falido e amigo do Luís dezesseis, pressentindo a monotonia em que iria mergulhar um mundo em eterno estado de graça – já que a autodeterminação da raça humana tinha chegado ao apogeu e era desnecessário o prosseguimento da História –, escreve uma obra de ficção, a primeira, primeiríssima ficção sobre um futuro alternativo. Essa obra contempla a possibilidade da Revolução desandar, olha só. Ela desenha o Robespierre como um maníaco, que três anos depois passa a guilhotinar inimigos, amigos, qualquer ser vivente. Essa obra ressentida - ou combalidamente nonchalante, como queira – chega ao ponto de estabelecer que a instabilidade social acaba voltando a Paris. Ah, o classicismo relutante. Pois bem, aí um psicótico chamado Napoleão entra no cenário pra devolver o status de império à França. O que o insidioso do Vautrin quer sugerir é que o conceito de esquerda, inaugurado no imaginário humano pelos jacobinos, sempre é acompanhado de um banho de sangue quando se institucionaliza. Autofagia pura. Aparecem outros personagens nas décadas seguintes: um alemão lança um manifesto que prevê o levante proletário mundial, baseado em coletivização da produção e na distribuição de riquezas. Então décadas depois uma tal comuna libertária trabalhista – tinha que ser novamente em Paris, claro – aparece e é esmagada num piscar de olhos. O tal Vautrin é fogo, eu te falei. Irônico mas não inverossímil: pra não deixar sua sátira presa numa premissa cínica e estéril, ele imagina, no século seguinte, a cartilha do alemão sendo aplicada por governos de vários países. Um desastre atrás do outro. Sempre o mesmo plot que se passou com os jacobinos: uma liderança política oriunda da representatividade popular passa por um revertério psicológico e só se mantém no poder à custa de sangue ou de deslavada corrupção. Tem mais: justo o país de onde saiu a declaração de independência que influenciou os jacobinos torna-se, duzentos anos depois, a maior potência mundial antagonista da esquerda. Eu falei que o Vautrin é um cínico. E ele nem pode ser acusado de seguir a cartilha da prosa épica: a trama futurista é encerrada com uma metalinguagem melancólica e meio vonnegutiana (sim, vem do personagem Kurt Vonnegut, autor de ficção científica que funciona no processo histórico meio como alter-ego do Vautrin), descrevendo o diálogo de dois sujeitos no início do século vinte e um, diálogo que contempla a possibilidade dos três últimos séculos terem sido obra ficcional – deixando clara a insinuação de que toda, toda e qualquer história depende tanto do posicionamento que o narrador metido a espertinho escolhe pra apresentar os personagens quanto do cenário em que eles são confinados, e voilà: temos dois sujeitos sem se saberem personagens, um falando eloqüentemente como convém a uma temática auto-explicativa, o outro monossilábico, falando ao celular, e… Er. O senhor estava – falando ao celular, aí?
– França! Percival França, caralho! Não é possível que você até agora não possa me dizer como é que tá meu carro! Eu tou esperando tem cinco minutos! Quer que eu dê o quê, o meu CPF também, porra? Como é seu nome? Como? Aldair? Pois é, Aldair, escuta bem: é por isso, entendeu?, é por isso que eu tenho esse BMW aí e você nunca vai passar de um simples atendentezinho, viu? Ouviu bem?

Sim: do lado de fora do elevador enguiçado. Esqueci de dizer.

8 Gritos:

Blogger leticia goncalves said...

"...e só se mantém no poder à custa de sangue ou de deslavada corrupção".

Não creio que a Dinastia de Luís XVI tenha se estabelecido na França por meios mais nobres que esses.

Talvez akelas teorias do Leviatã ou do Direito Divino dos Reis...

E Talvez seja morrendo de saudades do tempo que essas teorias vigoravam que o tal burguês amigo do rei escreveu a sua ficção-real.

Mas sua obra adquiriu vida própria...Ele não pÔde escrever as últimas partes, mas elas aconteceram. As velhas teorias voltaram...como num sonho de Luís XVI... E em pleno século XXI há alguém sentado num trono, governando soberanamente.

E esse alguém governa sem nem ao menos sabê-lo...é por não sabê-lo que governa. É a sociedade mesma que apesar de seu desgoverno e na falência de si mesma delega a outros, quaisquer outros, o direito de decidir por ela o que é melhor para todos.

Nesse desgoverno, só Deus sabe o que acontece (uma nova versão da Teoria do Direito Divino dos Reis)e é em nome da ordem social, da paz e da segurança, que o povo abre mão de sua liberdade (embora não possa sair de casa de tão perigoso q é andar pelas ruas...), é um contrato pós-moderno com o Leviatã.

Num cantinho da contra-capa há uma anotação misteriosa: "Vida longa a Leviatã". E por isso há quem diga que na verdade é ele quem sempre governou, na verdade, em todos os séculos.

Eu particularmente acho q essa é só mais uma maneira de nos eximir da culpa de sermos quem somos e de ter construído a sociedade que construímos. Nem os jacobinos, nem a nobreza nem a burguesia. A culpa é nossa.

09:14  
Blogger Laééércio! said...

O "Almirante Nelson" não nos isenta de culpa.

O personagem Percival França representa a população. E o próprio narrador confessa sua parcela de culpa quando afirma:

"toda e qualquer história depende tanto do posicionamento que o narrador metido a espertinho escolhe pra apresentar os personagens quanto do cenário em que eles são confinados"

Boa sacada...

14:12  
Blogger Vitor Taveira said...

muito boa essa!

14:29  
Blogger Laééércio! said...

É sim... rsrs... E a versão psicotrópico-premonitória do Vautrin é bem correta, até...

15:11  
Blogger ninest123 said...

cheap oakley sunglasses, louis vuitton, kate spade outlet, oakley sunglasses, ugg boots, nike outlet, nike free, polo ralph lauren outlet, louis vuitton outlet, prada handbags, christian louboutin outlet, ray ban sunglasses, longchamp outlet, tiffany jewelry, ugg boots, chanel handbags, longchamp outlet, michael kors, louboutin pas cher, prada outlet, replica watches, nike free, louis vuitton outlet, longchamp, gucci outlet, oakley sunglasses, nike roshe run, longchamp pas cher, sac longchamp, air max, uggs on sale, tiffany and co, louboutin outlet, nike air max, louboutin, air jordan pas cher, polo ralph lauren outlet, louis vuitton, louis vuitton, tory burch outlet, nike air max, jordan shoes, ralph lauren pas cher, ray ban sunglasses, ray ban sunglasses, louboutin shoes, burberry, oakley sunglasses, replica watches, oakley sunglasses

02:33  
Blogger ninest123 said...

true religion outlet, replica handbags, ralph lauren uk, tn pas cher, nike blazer, new balance pas cher, hollister, michael kors outlet, timberland, lululemon, hogan, lacoste pas cher, true religion jeans, north face, sac guess, kate spade handbags, coach purses, converse pas cher, ray ban uk, burberry outlet online, burberry, abercrombie and fitch, michael kors outlet, nike free run uk, michael kors, michael kors, air force, nike air max, hollister pas cher, michael kors, oakley pas cher, coach outlet, michael kors outlet, mulberry, vans pas cher, michael kors outlet, nike air max, nike roshe, nike air max, ray ban pas cher, hermes, ugg boots, vanessa bruno, true religion jeans, ugg boots, true religion jeans, north face, michael kors outlet, michael kors, coach outlet

02:43  
Blogger ninest123 said...

lancel, jimmy choo shoes, hollister, timberland boots, ferragamo shoes, louboutin, mcm handbags, beats by dre, chi flat iron, nfl jerseys, babyliss, converse, oakley, bottega veneta, north face outlet, ghd, wedding dresses, vans, nike air max, baseball bats, valentino shoes, nike air max, hollister, birkin bag, gucci, giuseppe zanotti, ray ban, mac cosmetics, soccer shoes, celine handbags, instyler, mont blanc, converse outlet, new balance, soccer jerseys, p90x workout, vans shoes, abercrombie and fitch, nike trainers, asics running shoes, ralph lauren, reebok shoes, nike huarache, north face outlet, longchamp, nike roshe, herve leger, lululemon, iphone cases, insanity workout, hollister

02:52  
Blogger ninest123 said...

ugg,uggs,uggs canada, links of london, moncler, sac louis vuitton pas cher, thomas sabo, moncler, canada goose outlet, louis vuitton, karen millen, barbour jackets, montre pas cher, canada goose uk, pandora charms, toms shoes, moncler, swarovski, moncler, louis vuitton, juicy couture outlet, canada goose, moncler, doudoune canada goose, louis vuitton, louis vuitton, swarovski crystal, moncler, pandora jewelry, canada goose outlet, ugg boots uk, barbour, marc jacobs, canada goose, wedding dresses, ugg,ugg australia,ugg italia, pandora jewelry, canada goose, coach outlet, supra shoes, juicy couture outlet, canada goose, moncler outlet, moncler, replica watches, hollister, pandora charms, ugg pas cher, bottes ugg

03:02  

Postar um comentário

<< Home

FREE hit counter and Internet traffic statistics from freestats.com